Por trás do discurso técnico, um escândalo político, moral e administrativo sem precedentes na história da saúde pública de Teixeira de Freitas, no Extremo Sul da Bahia.
A decisão do prefeito Marcelo Belitardo, médico de formação, de terceirizar praticamente toda a gestão da saúde municipal caiu como uma bomba sobre a população. O espanto virou revolta quando veio à tona o contrato de R$ 202.838.302,24 firmado com o Instituto Setes, entidade que passou a ser ironicamente apelidada nas ruas e nas unidades de saúde como “Instituto Sete Ladrões” — um nome que traduz o sentimento de medo, indignação e desconfiança generalizada dos usuários do SUS.
UM PREFEITO MÉDICO QUE CONFESSA INCAPACIDADE?
Eleito com votação expressiva, Marcelo Belitardo construiu sua campanha prometendo resgatar a saúde pública, afirmando ter competência técnica, sensibilidade médica e compromisso humano para fazer o que seus antecessores não fizeram.
O que se viu, no entanto, foi o oposto.
Ao terceirizar a saúde, o prefeito reconhece publicamente sua incapacidade de gerir aquilo que prometeu melhorar. Para muitos juristas e lideranças políticas, isso abre uma grave discussão sobre fraude eleitoral, já que o discurso de campanha não encontra qualquer correspondência com a prática administrativa.
“Ou ele mentiu ao eleitor ou assumiu que não tem competência para governar. As duas hipóteses são gravíssimas”, avalia um advogado ouvido pela reportagem.
R$ 202 MILHÕES, UM CONTRATO GIGANTE E PERGUNTAS QUE NÃO CALAM
O contrato firmado com o Instituto Setes, inscrito no CNPJ 12.081.689/0001-05, com endereço em um luxuoso edifício empresarial na Avenida Professor Magalhães Neto, na Pituba, em Salvador, prevê a gestão completa de unidades estratégicas como:
- Hospital Municipal de Teixeira de Freitas (HMTF)
- Hospital Municipal Sagrada Família (HMSF)
Trata-se de uma Organização Social sem fins lucrativos, mas com um contrato superdimensionado, que ultrapassa R$ 200 milhões — valor considerado astronômico para a realidade financeira do município.
Especialistas em administração pública questionam:
- Por que um contrato tão alto?
- Onde estão os estudos técnicos detalhados?
- Qual a real economia ou eficiência gerada?
- Quem fiscaliza?
- Quem ganha com isso?
“RACHADINHA” INSTITUCIONALIZADA?
Nos bastidores da política local, cresce a suspeita de que o modelo adotado abre caminho para desvios indiretos, pagamentos inflados, contratações obscuras e o que muitos já chamam de “rachadinha institucionalizada”, travestida de modernização da gestão.
Nada disso foi ainda comprovado, mas os indícios e o volume de recursos exigem investigação rigorosa, sob pena de omissão dos órgãos de controle.
UM ASSASSINATO MISTERIOSO E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR
O escândalo ganha contornos ainda mais sombrios com o assassinato misterioso de um diretor ligado à área da saúde, crime que chocou Teixeira de Freitas e permanece cercado de perguntas sem respostas.
Para setores da sociedade civil, o momento da morte, o contexto político e o volume de recursos envolvidos levantam a mais grave das suspeitas: a de um possível apagamento de uma testemunha-chave.
As autoridades ainda não estabeleceram ligação formal entre o crime e o contrato, mas o silêncio da prefeitura e a ausência de esclarecimentos públicos só ampliam o clima de desconfiança.
PREFEITURA SE CALA, POPULAÇÃO SOFRE
Enquanto isso, quem depende do SUS vive o terror diário:
- filas intermináveis
- profissionais inseguros
- falta de transparência
- medo de retaliações
- usuários acuados
A terceirização não apavorou apenas os usuários, mas também servidores e profissionais da saúde, que relatam clima de intimidação e insegurança institucional.
POSSÍVEIS CRIMES E RISCO REAL DE PRISÕES
Juristas ouvidos pela reportagem apontam que, caso as suspeitas se confirmem, podem estar configurados crimes como:
- improbidade administrativa
- fraude em licitação ou contrato
- dano ao erário
- falsidade ideológica
- e até organização criminosa
Nesse cenário, ninguém estaria imune, nem mesmo o prefeito.
A SAÚDE VIRA NEGÓCIO, O POVO VIRA VÍTIMA
Teixeira de Freitas vive hoje um paradoxo cruel: um prefeito médico que terceiriza a saúde, um contrato bilionário que não convence e uma população que paga o preço com sofrimento e medo.
A pergunta que ecoa nas ruas é simples e devastadora:
Quem está, de fato, sendo curado com esses R$ 202 milhões — o povo ou um sistema de interesses?
A sociedade aguarda respostas.
O Ministério Público, o Tribunal de Contas e a Justiça não podem se calar.
Por Redação